13ª Edição


Faz parte da especificidade de um projeto de Bienal relacionar-se com o lastro de suas edições anteriores. Cada edição se inscreve como continuidade e, ao mesmo tempo, inflexão de bienais passadas, encarando o desafio de chacoalhar com a mesma intensidade com a qual adensa suas intenções e métodos. É nesse sentido que a 13a Bienal Naifs do Brasil optou por não conceber uma mostra distinta daquela formada, vertebralmente, pelos artistas selecionados através da convocatória de participação da Bienal. Se em outras edições houve salas especiais ou curadorias paralelas, nesta 13a edição os diferentes capítulos do projeto se encontram. A curadoria de Todo mundo é, exceto quem não é tomou como ponto de partida e fio condutor as obras selecionadas por meio do regulamento. Dessa maneira, antes de sermos os curadores desta Bienal, talvez sejamos seu primeiro público. Foi somente após conhecer os artistas selecionados que demais obras foram convidadas, na intenção de estabelecer conversas singulares entre obras que se imantam, se demandam e iluminam perspectivas umas às outras. Os núcleos que aqui se apresentam buscam sublinhar interesses que foram manifestados pelos trabalhos inscritos na Bienal, e não expectativas que foram curatorialmente lançadas sobre eles.

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Cristiano Lenhardt
Superquadra-Sací, 2015
Filme super 8/digital
9 minutos

Núcleos


Todo mundo é, exceto quem não é

Desnaturalizar. Nem mesmo o saci é o saci. A natureza não é o que nos une. O que nos conecta é o que fazemos com ela; o que ela faz conosco, num nós que é também dela. A coexistência entre diferentes formas de existência funda reciprocidades e simetrias: humanos e mitos pertencem ao mesmo regime de verdade. Inclusive a origem do mundo de vez em quando se origina novamente, dando a luz a outros corpos. E a corporeidade persiste.


Espaço

Quando não impera a perspectiva euclidiana. Espacialidades são formas de existir: prescindir de centros ou pontos de fuga funda outros corpos, relações e equilíbrios. Quando a profundidade cede ao raso, já não há o que transbordar – tudo é amplidão. Quando se atenua a gravidade, descentrada, radicaliza-se a coreografia.


Gráfico

A preponderância da linha que grava e organiza. Da linha que possibilita limitar e em cuja trama, ao mesmo tempo, se intrinca a vida. A linha que decora é também a linha que rabisca; grafar, mais do que escrever, é inscrever. Como inscrita é a linha orgânica, que se faz no encontro de superfícies e corpos: linha que surge quando a borda se torna meio.


Pictórico

O desejante da pintura. Quando se deseja, deseja-se o todo – da cor, da tinta, da massa, do escorrimento, do volume, da superfície, do espaço. Daquilo que é o pictórico fora da pintura, e para além de qualquer figura. Do desejo pela pintura que se interpõe à narrativa e que, desejante, delira.


Matérico

Corpo contaminado. Contaminante. Lançado ao território onde a posse reina contra a propriedade, onde as coisas se imantam, se agrupam, reagem umas às outras sem respeito a fronteiras. A matéria é o corpo que não cabe em si mesmo, e que se transfigura em coisa do mundo. Corporeidade. Coisa formada por densidades, volumes, temperaturas, forças que vinculam, intensidades.


Político

Multidão. Sem unidade, a multidão funda um comum por entre as diferenças e as singularidades. O comum prescinde de unidade: além do senso, há também o dissenso comum. A multidão se multiplica na luta e nas formas de ocupação e reinvenção desses comuns, das manifestações políticas à praia ou ao futebol. Mesmo no seio da (in)visibilidade social – naquilo que poderia ser a negação do indivíduo ou a afirmação hegemônica de um sobre muitos – emerge a multidão, dissensual e poderosa.


Júri


Fabricio Lopez

Fabricio Lopez vive e trabalha em Santos e São Paulo. Mestre em poéticas visuais pela ECA – USP sob orientação de Claudio Mubarac, é membro fundador da Associação Cultural Jatobá – AJA e do Ateliê Espaço Coringa, que entre 1998 e 2009 produziu ações coletivas como: exposições, publicações, vídeos, aulas, intercâmbios e residências artísticas. Participou de diversas exposições coletivas dentre elas: Gravure Extreme – Europalia, Trilhas do Desejo – Rumos Itaú Cultural, X Bienal de Santos (1° prêmio), Novas Gravuras – Cité Internationale des Arts / Paris – FR, XIII Bienal Internacional de Arte de Vila Nova de Cerveira – Portugal e Arte Contemporânea no Acervo Municipal – Centro Cultural S. Paulo. Participou do Encontro Panamericano de Xilogravura em Trois Riviérès, no Canadá, de residência como artista convidado do Atelier Engramme na cidade do Québec e no CRAC (Centro de Residências para Artistas Contemporâneos) em Valparaíso no Chile como prêmio do Programa Itaú Cultural. Realizou exposições individuais no Centro Universitário Maria Antonia, na Estação Pinacoteca – SP e no Centro Cultural São Paulo, integra os acervos públicos da Pinacoteca Municipal e do Estado de São Paulo, Casa do Olhar – Santo André, Secretaria Municipal de Cultura de Santos e do Ministério das Relações Exteriores com o 1° prêmio para obras em papel do programa de aquisições do Itamaraty.


Julieta Machado

Angolana naturalizada brasileira, Julieta Machado é formada em artes plásticas. Participou como artista de diversas exposições coletivas em São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Bahia. Trabalhou no núcleo de artes visuais do Sesc Pompeia e atualmente integra a Gerência de Artes Visuais e Tecnologia do Sesc São Paulo, onde responde pelo Acervo Sesc de Arte Brasileira.


Valéria Laena

Historiadora, trabalha com pesquisas relacionadas a bens culturais materiais e imateriais no Ceará, na produção de documentários que valorizam a produção artesanal e artística de anônimos e “mestres” de ofícios e na gestão de museus. Foi diretora do museu oficial do Estado e atualmente é Diretora de Museus do Centro Dragão do Mar em Fortaleza, onde cria e desenvolve projetos especialmente ligados ao Museu da Cultura Cearense. Apresentou em curadoria compartilhada em São Paulo, no Sesc Belenzinho, a exposição Retrato Popular e no Ceará coordena um trabalho de pesquisa sobre a culinária cearense para resultar em exposições, documentário e publicação.


Curadores 2016


Clarissa Diniz

Nascida em Recife, Clarissa é graduada em Educação Artística/Artes Plásticas pela Universidade Federal de Pernambuco e possui mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Foi editora da Tatuí, revista de crítica de arte. Publicou os livros “Crachá – aspectos da legitimação artística” (Recife: Massangana, 2008), “Gilberto Freyre” (Rio de Janeiro: Coleção Pensamento Crítico, Funarte, 2010) – em coautoria com Gleyce Heitor –; “Montez Magno” (Recife: Grupo Paés, 2010), em coautoria com Paulo Herkenhoff e Luiz Carlos Monteiro; e “Crítica de arte em Pernambuco: escritos do século XX” (coautoria com Gleyce Heitor e Paulo Marcondes Soares. Rio de Janeiro: Azougue, 2012). Das curadorias, destacam-se “Refrações – arte contemporânea em Alagoas” (cocuradoria com Bitu Cassundé. Pinacoteca da UFAL, 2010), “contidonãocontido” (cocuradoria com Maria do Carmo Nino e EducAtivo Mamam – Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, Recife, 2010), “Contrapensamento selvagem” (cocuradoria com Cayo Honorato, Orlando Maneschy e Paulo Herkenhoff, Instituto Itaú Cultural, SP, 2011), “Zona tórrida – certa pintura do Nordeste” (cocuradoria com Paulo Herkenhoff. Santander Cultural, Recife, 2012), “Pernambuco Experimental” (cocuradoria com Paulo Herkenhoff, MAR, Rio de Janeiro, 2013) e Gilberto Freyre: vida, forma e cor (cocuradoria com Fernanda Arêas Peixoto, Jamille Barbosa e Leonardo Borges, Caixa Cultural, Recife e São Paulo, 2016). Entre 2008 e 2010, integrou o Grupo de Críticos do Centro Cultural São Paulo, CCSP.


Claudinei Roberto

É formado em Educação Artística pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Em 2005, funda e organiza o Ateliê OÇO/Galeria Cine Sol onde realiza várias mostras e atividades artístico pedagógicas no bairro da Liberdade, em São Paulo. Participou, em 2011, do Programa “International Visitor Leadership Program” do Departamento de Estado do Governo dos Estados Unidos. De 2010 a 2013 foi Coordenador do Núcleo de Educação do Museu Afro Brasil. Em 2013 e 2014 foi Coordenador Artístico Pedagógico do projeto multinacional “A Journey trough African diáspora”, do American Aliance of Museuns em parceria com o Museu Afro Brasil e Prince George African American Museum. Dentre suas principais curadorias, se destacam: Sidney Amaral O Banzo, o amor e a Cozinha, 1º Prêmio Funarte para artistas e curadores negros – Museu Afro Brasil – São Paulo (2014); Coordenação e Curadoria – Simpósio Presença Africana no Brasil – Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo (2015); e Curador e texto Crítico da exposição Audácia Concreta as Obras de Luiz Sacilotto – Museu Oscar Niemeyer de Curitiba (2015).


Sandra Leibovici

Possui graduação em Comunicação Social (PUC – SP), com especialização em Gestão Cultural (Birkbeck University – University of London) e História da Arte (FAAP SP). Atua no Sesc desde 2005, empenhando inicialmente a função de animadora cultural à frente das Oficinas de Criatividade do Sesc Pompeia e posteriormente a supervisão das exposições da mesma unidade. Atualmente é assistente técnica da Gerência de Artes Visuais e Tecnologia do Sesc.