Trajeto 1

Por conta das limitações do espaço físico para realizar a exposição, a Bienal pode crescer muito, ainda assim consegue por meio de estratégias de redesenho arquitetônico do espaço disponível reunir um número de obras que pode mesmo ultrapassar 200 peças.

Se a mostra não pode se expandir físicamente, nem mesmo grande parte do público interessado nela pode ir a Piracicaba, para esta 14ª edição intitulada “Daquilo que escapa” a exposição chega na integra à internet sem deixar escapar nada do que ali estará exposto entre agosto e novembro de 2018.

Para animar os navegantes que já conhecem o universo da arte naifi e para aqueles que querem descobri-lo, quem sabe mesmo fazer sua própria arte à maneira naifi, apresentamos alguns trajetos pela exposição.

As obras foram selecionadas individualmente por diferentes pessoas e, a partir daí, foram propostos alguns trajetos. O primeiro deles trata de três temas: figura humana, animais e seres fantásticos.


FIGURA HUMANA

O tema figura humana é tão importante na arte naifi que a cada edição da bienal as maneiras de representá-lo se multiplicam na forma e no conteúdo. Nesta edição elas podem ser vistas fazendo muitas atividades, como, por exemplo, trabalhar, como na pintura Mercado Naïf de Guerrode Adolphe, 47 anos, artista haitiano naturalizado brasileiro, que mora em Embu das Artes, São Paulo. Observe como o espaço público onde se realiza o comércio pode ter uma predominância de mulheres. Esta presença negra e feminina também é recorrente no Brasil, país no qual historicamente, desde o período colonial, muitas mulheres negras trabalham no comércio de rua vendendo alimentos, como no quadro.

Abordando a relação entre figuras humanas e espaço público: Vendedor e pedinte, do artista Calderari, 64 anos, que também é comerciante no segmento de malharia em Minas Gerais, mostra apenas dois homens, um que vende algo, outro que pede ajuda aos passantes. Aprendemos com essa obra que a rua é um lugar de todos que, por razões diferentes, a ocupam. Em Orla da Piedade, o artista Codo, 47 anos, que nasceu em Santa Catarina, mas vive em Pernambuco, mostra várias pessoas em pequenas embarcações, enquanto outras estão na areia, nenhuma, porém, está com roupas de banho, o que pode nos ensinar que, enquanto para alguns a praia é associada ao lazer, para outros é associada ao trabalho.

Da beira do mar vamos para o alto mar, cujo contato com suas águas não é para todas as pessoas. Em cidades litorâneas sobram histórias de pescadores que saíram e nunca mais retornaram. O mar é também local de catástrofes como a que em 1816 matou 150 pessoas que saíam da França para o Senegal. A tragédia inspirou o pintor romântico francês Théodore Géricault a pintar o quadro A jangada da Medusa que por sua vez inspirou o artista Matheus de Souza, 23 anos, de Americana, interior de São Paulo, a retomar o tema sugerindo em sua obra que Os tripulantes da balsa da medusa não sabiam que eles precisavam de coletes salva-vidas para serem notados. Ao trazer o assunto de volta, o artista nos lembra que, infelizmente, os equipamentos de proteção nem sempre acompanham as novas viagens em alto mar e que, portanto, este lugar continua a matar como um monstro terrível quem se aventura nele sem proteção.

A partida da Jangada da Medusa tinha como destino a dominação territorial do continente africano pelos franceses. Essa dominação envolvia a posse da terra e de suas riquezas naturais, o que causava uma série de conflitos entre quem era nativo das regiões invadidas e os invasores que, com truculência, chegavam da Europa para tomar o que não era seu. Este assunto aparece em Conflito por terras indígenas no qual o artista Dibrósio, 66 anos, de Mirandópolis, São Paulo, representa a luta desigual que ocorre diariamente entre os povos indígenas que há mais de 10 mil anos habitam o Brasil pelo direito à terra contra os invasores externos.

Quando se fala em violência social, o Brasil é um dos países que ganha destaque na cena internacional, isso porque por estas terras houve um longo período de escravidão no qual homens, mulheres e crianças indígenas e negras foram escravizados e tratados como coisas, como máquinas para trabalhar, animais de carga. O país está entre os primeiros cinco colocados em encarceramento em massa no mundo, são 700 mil pessoas presas em 2017 e o mais preocupante: boa parte delas não tiveram direito a julgamento e mais de 50% tem a pele negra. O artista Fernando Bororó, 54 anos,funcionário público, nascido em Campinas, São Paulo, consegue nos dar uma visão do problema com sua obra: Prisão II na qual vários indivíduos estão reunidos em um espaço ladeado por arame farpado visto de cima. O ângulo do qual se vê a multidão presa é de quem está na vigilância e no controle.

Na obra Casamento escondido do artista goiano de Anápolis Chico Silva, 47 anos, temos uma situação curiosa que, apesar de cômica, envolve também violência, desrespeito à liberdade de escolha e machismo. Parece que o pai da noiva que ocupa o centro do quadro descobriu seu casamento às escondidas com um homem que ele não autorizou, por isso a interrupção do rito social, quando ele coloca a arma na boca do padre, enquanto os convidados fazem cara de espanto.

Historicamente as barbearias são importantes lugares de sociabilidade masculina, do mesmo modo que os cabeleireiros o são de sociabilidade feminina. Essa oposição entre masculino e feminino foi rompida quando surgiram, a partir da década de 1970, os salões unissex, que atendiam homens e mulheres. Até o século XX em muitos lugares do Brasil uma pessoa só tinha acesso a imagem de seu proprio rosto dentro de um salão de barbeiro. Em Barbearia do Cride, escultura do artista Biagini, 47 anos, professor que mora no Paraná, vemos esse comércio envolto em amizade, mais característico de cidades pequenas, mas que se mantém mesmo em grandes cidades.

 

ANIMAIS

Depois de vermos tantas pessoas e um cavalo branco participar da cena de Casamento escondido chegamos à obra Sem título, do artista Paulo Roberto, 57 anos, pintor, morador de Caieiras, estado de São Paulo. Dividida em duas sessões, a parte superior é noturna, misteriosa e nela dois animais bastante conhecidos no Brasil – macaco e coruja – parecem estar atentos a algo que acontece diante ou abaixo deles. Essa parte inferior da tela remete à lembrança do sonho, quando na tentativa de relatar a alguém o que vimos e sentimos enquanto sonhávamos, mal conseguimos distinguir os ambientes e coisas que nele apareceram.

 

SERES FANTÁSTICOS

Seres fantásticos são um tema recorrente na produção artística que se inspira na cultura popular. A cada edição eles retornam à Bienal com uma aparência nova mais ou menos assustadora e podem ter forma animal, humana ou híbrida, quando essas duas dimensões se juntam. Sua imagem pode ser feita de desenho, tinta, madeira, ferro ou, como neste caso da obra Guardião, do paranaense Chico Santos, 36 anos, em que o material que lhe dá vida e forma é um saco de café e barbante. A partir desta obra encontre outras criaturas aqui mesmo no site da bienal. Você poderá fazer isso aproximando-as de diferentes maneiras pela cor, pela forma da figura, pelo título e pelos materiais usados.

A última obra deste trajeto é Boca do Diabo, de Luciano Luz, 36 anos, psicólogo, que mora no Rio Grande do Sul, nela um pequeno pote nas cores branco, preto e vermelho guarda dentro de si um grande número de cabeçinhas de caveira muito pequenas. Na imaginação popular, tanto quanto no cinema, na literatura, nos quadrinhos e nas artes plásticas, o diabo é um ser que pode aparecer como um belo anjo, um homem ou mulher bem vestidos e atraentes, mas também como animais comuns como um cachorro, um gato, um galo ou como um animal fantástico com poderes sobrenaturais e atributos excepcionais como soltar fogo pelo focinho, sumir e aparecer, voar mesmo sem asas.

Curador educativo: Alexandre Araujo Bispo