Trajeto 2

Abaixo indico seis obras, em variados suportes e técnicas, que chamam minha atenção seja pelos temas abordados, seja pelas soluções formais apresentadas.

A pintura Mercado Naif, acrílica sobre tela do artista haitiano Aldophe, mostra várias mulheres negras comercializando alimentos diversos (verduras, cereais, frutas e legumes) em cestos de palha, o que de inicio explicita a participação feminina no mundo do trabalho. Todas as mulheres vestem a mesma roupa branca, algumas com lenços nas cabeças, outras com chapéus. O artista, de origem haitiana, compõe uma cena provavelmente muito comum no seu país de origem: comércio de alimentos frescos num contexto ainda não urbanizado. No Brasil, ainda hoje é possível vislumbrarmos a mesma cena acontecendo em cidades de diversos tamanhos. Outro detalhe que chama a atenção é a ausência de um prédio/edifício que abrigue o mercado naïf, reforçando a ideia de que o mercado são as pessoas nas relações sociais de troca.

 

Já a pintura O tempo, acrílica sobre tela de Eduardo Nascimento, me intriga pela anacronia dos elementos retratados: uma caravela, o oceano, uma figura humana negra com um calção azul, coqueiros, uma rede, uma ave jurássica, uma ilha no formato de dinossauro e um relógio de ponteiro. Diferentes tempos da história humana (caravela e relógio de ponteiro) convivem com diferentes tempos da história do mundo, sugerido pelos dinossauros (a ave e o “dinossauro ilha”). É interessante observar que o dinossauro/ilha olha diretamente para o relógio, numa convivência possível apenas na liberdade criativa da arte. A aparente simplicidade formal do trabalho – proporção das figuras apresentadas, palheta de cores, falta de perspectiva – contrasta com a complexidade do conteúdo apresentado, a abstração humana que é a noção de tempo.

 

A tela Prisão II, feita por Fernando Bororó também em acrílica sobre tela, retrata o pátio de uma prisão supostamente no momento do “banho de sol” dos detentos. Temas como multidão, segurança pública e liberdade podem ser abordados a partir deste trabalho. Para mim o que mais chamou a atenção é o fato da imensa maioria das pessoas retratadas na cena serem brancas, num cenário que não corresponde com a realidade racial da sociedade brasileira, na qual a grande maioria das pessoas presas são negras. Olhando mais atentamente, é possível observar a presença de crianças brincando, o que sugere que o quadro retrata, na verdade, um dia de visita familiar aos detentos.

 

A escultura Besouro, escultura em madeira de Hiorlando, apresenta um besouro verde, provavelmente feito com madeira, com detalhes em amarelo e presas vermelhas. A obra se insere na tradição popular de construção de objetos e animais em formato tridimensional com o uso de materiais simples e ordinários, acessíveis à criadores de diversos contextos do país e de diferentes extratos sociais. O domínio construtivo demonstrado pelo artista resulta numa obra com uma pitada de ludicidade (no senso comum, temos consolidada a imagem de besouros pretos, e não verdes), o que provavelmente despertará o interesse das crianças.

 

A obra de Lúcia Neto, Apaixonadx, técnica mista com papel machê, traz no título uma problematização sobre as questões de gênero, ao optar pelo formato “indefinido” da letra “x”, sugerindo que o trabalho se refere aos seres humanos no geral, independente do sexo biológico. Uma escultura em papel machê apresenta uma pessoa com uma blusa rosada, que sugere a presença de seios e a figura humana ostenta um colar no pescoço com uma aparente flor rosa. Elementos comumente associados ao gênero feminino. Porém, não é possível associar o rosto diretamente à nenhum dos dois sexos binários com o qual as ciências naturais classificam boa parte das espécies vivas. O próprio rosto, apresentado de “ponta cabeça” – num ficcional exercício de contorção e alongamento do pescoço – pode sugerir uma metáfora da condição de qualquer pessoa (mulher, homem ou não binária) quando está apaixonada, e passa a ver o mundo de cabeça para baixo.

 

Por fim, a xilogravura Sem titulo – Da série: Jumento City, de autoria de Sebá Neto, mostra o icônico prédio do Museus de Arte de São Paulo (MASP) apresentado como uma espécie de cocho onde jumentos comem o alimento disposto no teto do edifício, assistidos por algumas pessoas que estão no primeiro plano da cena. Estamos diante, talvez, de pelo menos duas possibilidades de crítica propostas pelo artista: ou ele sugere que o público frequentador do referido museu – considerado por muitos como detentor da maior coleção de arte ocidental (que Ocidente?) do hemisfério sul – é ignorante (no imaginário popular, o animal jumento é tido como um ser teimoso que não é passível de aprender o que tentam lhe ensinar), à despeito da suposta erudição apresentada nas exposições temporárias e permanentes da instituição; ou ele sugere que o Museu assim entende o seu público, sendo o Museu o detentor da sabedoria e do conhecimento e o seu público constituído por pessoas ignorantes. Independente da interpretação, o tom crítico da obra salta aos olhos, ao problematizar o papel de uma instituição que praticamente goza de unanimidade no meio artístico brasileiro.

Finalmente, merece destaque a predominância da figuração – seja em obras bi ou tridimensionais. Esta é uma característica recorrente na produção visual naïf. A despeito do hegemônico mercado da arte não ser tão harmônico e belo quanto à cena apresentada pelo artista Aldophe Guerrode, é muito fácil nos apaixonarmos por estas obras, produzidas por mulheres e homens das mais diferentes ocupações profissionais, raças, credos e classes sociais. Preso a estereótipos e preconceitos próprios de uma sociedade profundamente desigual, o chamado “circuito hegemônico das artes visuais” no Brasil tende a minorar, diminuir a importância desta produção. Para o bem e para o mal dos seus criadores, que possuem a liberdade de aprisionar seus críticos e criticas – a maioria deles e delas pessoas brancas – nas suas estreitas e elitistas visões de mundo.

Leonardo Borges